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0 saudade

Que saudade, de curar um joelho ralado ao invés de um coração partido. Que saudade de achar que um machucado era a pior dor de todas as dores que pudessem existir. Que saudade, de não ter motivos pra brigar com os amigos. Que saudade de ser criança. De ser tratada como uma inocente criança por todos. Saudade de viver num mundo de paz, em um mundo sem tanta violência, sem tanta falsidade. Que saudade, de poder correr na rua, sem medo. De só pensar em brincar, em aproveitar a vida. Que saudade de levar broncas por apenas artes que eu cometia com toda inocência. Que saudade de não precisar ter segredos sobre nada, pra ninguém. Que saudade da época em que todos iam escola pra estudar de verdade. Saudade de viver a vida intensamente, sem medo de nada. De ter em consciência que você é dependente, que você não pode se mandar sozinho, não pode fazer tudo o que quer, mais mesmo assim agradar até o fim, e sempre conseguir. De não ter motivos pra querer ser alguma autoridade pra alguém. Saudade de não saber que tudo tem um limite. Saudades de acreditar que existe o príncipe encantado e que você vai encontrá-lo. Saudade de acordar cedo, pegar a coberta e o travesseiro e o copo de Nescau e ir pro sofá assistir desenho. De ficar ali, sem piscar até acabar o desenho, e depois ir pra escola. De querer ser grande, de imaginar você quando for grande, sendo astronauta, sendo medica, sendo cantora, atriz, sendo cada dia uma coisa. Saudade de não ter noção do que é o mundo de verdade. Saudade de amar apenas amigos e família. De ter aquele professor preferido. De não odiar ninguém. De não brigar com ninguém. De não amar intensamente alguém além da amizade. De não pensar em mais nada, além de estudar, pra quando você crescer ter uma vida boa e ser capaz de realizar todos os sonhos. Saudade de quando a moda era qualquer roupa. E não existia frescuras. Saudades de quando a gente chamava a atenção por qualquer coisa, fazia palhaçadas, porquisses. De quando a gente não precisava ter medo, porque aonde quer que fossemos, os nossos pais estavam do nosso lado, nos protegendo pro que fosse necessário. Saudades de quando a gente era sempre a mesma pessoa, com o mesmo humor, apenas chorava por pequenos machucados, que hoje a gente faz os mesmos e até ri. De não ter motivos pra ficar sofrendo, nem pra passar dias e noites em claro chorando por amar e não ser correspondido, ou por brigas. Não tinha sentimentos tão fortes pra tentar entender, não precisava ter coragem pra dizer alguma coisa pra alguém. Saudades de quando a gente fazia qualquer coisa, e por mais boba que ela tenha sido, todos achavam engraçado, e a gente com vergonha, ainda cabia em baixo das pernas dobradas dos nossos pais, e nos escondíamos ali. Saudades de quando éramos felizes e não sabíamos. Saudade de quando a gente sonhava em ser grande, sonhava em amar, sonhava que a vida era fácil. Não há explicações, nem palavras suficientes. É saudades demais da conta.

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